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Marcelo Copello visita o Château HAUT-BRION

Marcelo Copello visita o Château HAUT-BRION

22/11/2021

Marcelo Copello

Bordeaux

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Os Châteaux Haut-Brion e La Mission Haut-Brion são vizinhos e, desde 1983, pertencem ao mesmo grupo. Fiz uma visita aos dois châteaux mais prestigiosos de Pessac-Léognan, sub-região de Bordeaux, que fica na região metropolitana da cidade.

O Château Haut-Brion (CHB) é para muitos especialistas o melhor dentre todos os vinhos de Bordeaux. Para alguns como Robert Parker, trata-se simplesmente do maior vinho do mundo… O Haut-Brion é o veterano e o menor dos Premier Crus Classés de 1855. A menção mais antiga à existência de vinhas na propriedade onde hoje está o Chãteau data de 1423. O castelo propriamente dito só viria a ser construído, no entanto, em 1550, por Jean de Pontac.

De uma antiga linhagem de comerciantes de vinhos, Pontac viveu nada menos que 101 anos. Naquela época os vinhos eram mais conhecidos pelo nome de seus donos, no caso o CHB era chamado simplesmente “vin de Pontac”. Aos poucos o nome do Château tomou o lugar do nome de seu produtor e a noção de “Cru” foi sendo criada. A primeira menção escrita ao vinho do CHB data de 1663, nos diários de Samuel Pepys, membro do parlamento inglês. A família Pontac possuía uma taverna em Londres, chamada “Royal Oak Tavern”, onde ofereciam seus vinhos. Após visitar o local Pepys escreveu: "there I drank a sort of French wine called Ho-Bryan which hath a good and most particular taste which I never before encountered”.

Os múltiplos donos do Château ao longo da história
A família Pontac controlou o CHB entre 1550 e 1746, quando outra família de comerciantes de vinhos, Lumel, comprou a propriedade. Em 1801 o CHB mudaria de dono de novo, desta vez passando para um ministro de Napoleão, Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, que usou mais o vinho com fins políticos e logo se desfez da propriedade. Após um período em que pertenceu a um banqueiro (entre 1804 a 1836), o CHB voltou a seus dias de glória pelas mãos da família Larrieu. Joseph-Eugène Larrieu muito fez pelo Château e foi premiado com a classificação como Premier Crus Classés em 1855. Após novo período em posse de um banco (entre 1922-1923), o CHB teve um dono com fama de excêntrico, André Gibert, que tentou doar a propriedade para a comunidade de Bordeaux sem sucesso e acabou vendendo ao banqueiro americano Clarence Dillon em 1935 pela módica quantia de 2,3 milhões de francos.


Dillon era um apaixonado por vinhos de muito bom gosto, já que se Château predileto era o Haut-Brion. A família Dillon ainda é a dona o CHB. Joan Dillon, ex-princesa de Luxemburgo e Duquesa de Mouchy administrou o Château de 1975 até 1 de agosto de 2008, quando seu filho Príncipe Robert de Luxemburgo assumiu a presidência da Domaine Clarence Dillon (empresa que controla algumas propriedades bordalesas, incluindo o CHB).

O Château hoje
O CHB possui 43 hectares de vinhedos, com idade média das vinhas de 36 anos. A densidade de plantio é de 8 mil vinhas por hectare. A área é ocupada 45% por Cabernet Sauvignon, 37% por Merlot e 18% Cabernet Franc. A produção varia de 216.000 a 234.000 garrafas/ano do vinho principal (Château Haut-Brion). O Château também elabora ao ano cerca de 50 mil garrafa de um segundo vinho, o Le Clarence de Haut-Brion (que até a safra 2006 chamou-se Bahans Haut-Brion). Outro vinho de grande prestígio do Château é o Château Haut-Brion Blanc, tido como o melhor vinho branco de Bordeaux e um dos maiores do mundo.  A propriedade ainda produz um 2º rótulo branco, chamado La Clarté de Haut-Brion (que até a safra 2007 chamou-se Les Plantiers du Haut Brion).

O terroir do Haut-Brion
Formado por duas colinas os vinhedos do CHB estão a 12-15 metros acima do leito de dois córregos, o Peugue e o Ars. Os solos são de origem terciária, formados por cascalho, areia e argila. No passado este solo foi parte dos montes Pirineus e hoje uma camada de pedras de quartzo de 1-3 cm foi coberta por pedras maiores, de 6-8 cm e de 10-12 cm. Ao nível da superfície o solo é de cascalho arenoso cinza, com pedaços de quartzo. O subsolo guarda uma maior concentração de argila avermelhada, responsável pela retenção de água e obrigado às raízes a se aprofundarem. 

A elaboração do vinho
A elaboração do Château Haut-Brion é cuidadosa, mas muito simples. A colheita é manual. Os cachos são 100% de desengaçados e após um suave esmagamento passam ao processo de maceração-fermentação que dura entre 15 e 30, dias dependendo da safra. Segundo Jean-Philippe Delmas a duração da desta etapa é fundamental, pois não se deseja um vinho demasiado concentrado, e sim, o melhor equilíbrio e espaço para que o magnífico terroir do CHB expresse todo seu potencial .
A fermentação é levada a cabo por com leveduras autoctonas, em tanques de inox de 22.500 litros, a temperatura controlada de cerca de 30oC. Em 1961 o CHB tornou-se 1º Château bordalês com tanques de INOX, onde a fermentação malo-lática também acontece. A etapa seguinte é o corte ou assemblage. A proporção de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc varia a cada ano, em função da qualidade da colheita de cada uma destas castas. O CHB é um dos tintos bordaleses que mais tempo fica em carvalho. O amadurecimento em barricas é longo, entre 18 e 30 meses, sempre em barricas novas. O CHB produz seu próprios barris in loco, com a cooperação da empresa especializada Seguin-Moreau. São feitos 4-5 barris ao dia, para suprir a necessidade anual de 1.000 barris.

Fiz uma entrevista com Jean-Philippe Delmas, director-gerente do Château Haut-Brion que pode ser vista AQUI

Vinhos antigos do Haut-Brion já degustados veja AQUI

Vinhos degustados nesta visita: 

Château La Mission Haut-Brion 2017
Elaborado com 56% Merlot, 39.6% Cabernet Sauvignon, 4.4% Cabernet Franc.  Cor rubi violácea escura. Aroma rico, com notas de frutas negras maduras, ameixa, cassis, flores, defumados, madeira, mineral, tabaco, musgo, chocolate, grafite. Paladar de bom corpo, taninos finos, equilibrado, longo. Um La Mission muito aberto e expressivo, que pode ser bebido agora, mas tem potencial para longa guarda. Avaliado em 29/10/2021, às 15 horas, em taça tipo Bordeaux, à 18oC, sem decantação. Sugestão de consumo, até 2042

NOTA 95 pontos


Château Haut-Brion 2017
Elaborado com 53% Merlot, 40.7% Cabernet Sauvignon, 6.3% Cabernet Franc. Cor rubi violácea escura. Aroma tímido no início, bem mais fechado que o La Mission, foi abrindo aos poucos na taça, com refinamento mineral, notas de ervas, chocolate amargo, licor de cereja, grafite, tabaco. Paladar firme, profundo, taninos estruturados, boa acidez. Uma safra para guardar antes de abrir. Enquanto o La Mission está de biquini, já mostrando tudo, este Haut-Brion, vai fazendo um lento strip-tease. Avaliado em 29/10/2021, às 15 horas, em taça tipo Bordeaux, à 18oC, sem decantação. Sugestão de consumo, até 2052

NOTA 97 pontos

As avaliações completas estão sempre no banco de dados de vinhos neste site: AQUI

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com